visitei o seu poema

visitei o seu poema
de pele
e olho claro
que eu quero esquecer

já não faz parte
ou
nunca fez
das palavras
escritas no papel
porque
não foram ditas

no fundo
ou lá em cima
não sei se importa
mais

deixo as marcas
de amassado
no seu poema
que eu guardei
pra não
lembrar

não jogo fora
mas vou
embora
e deixo num passado
não mais presente
o que ficou
guardado
em
mim

lua adversa

Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

Cecília Meireles, in ‘Vaga Música’

fiz um resgate

fiz um resgate
no âmago
amargo
da doçura
vestida de escuro
e coberta
por flores negras
que não refletiam a luz do sol.

resgatei a parte
que me partia ao meio
e não me dava
a inteireza
que é coisa minha por direito.

nascida e criada do fundo
sem fundo
sem fé sem tudo
fiz pedra onde o caminho foi turvo.

fiz sol
com a luz de dentro
costurei
as partes
colori
as flores
fiz quintal numa casa sem telhado.

e
prometi
pra mim mesma
que não
abandono
não me despedaço
e não me parto
aos meios
nunca
mais.

sempre o tempo

sempre o tempo
um alquimista
desmotorizado
andando a pé
alado
correndo atrás na frente
voado.
me disse pra correr
despreocupado
que quem anda a pé
corre com lança
voa armado.
calça o chão
e
veste a pele
de uma
nuvem
qualquer.

sempre o tempo
que sabe
das coisas
que ninguém se atreve
que passa e leva
a poeira
deixada
por uma falta e meia.
ele que traz o presente
instante
não
linear
que preenche
o corpo
a vida e as coisas
de forma a dar

ao ponto sem nó
e ponto final
à espiral

sem fim.

eu não pedi as profundezas

eu não pedi as profundezas
simplesmente
as tenho
como minhas partes
partes minhas

eu não pedi às profundezas
que me fizessem
caos
e chuva
que me molhassem
me afogassem
nua.

eu não chamei por elas
que não moram
aqui
mas me visitam
sempre.
aliás
eu diria até
que
constantemente.

eu não pedi
não chamei
e
eu não fugi
quando vieram.

essas profundezas
que me batem
à porta
e me convidam
a conhecer
o desconhecido
a habitar
ver
e viver
o invisível.

já faço isso há tanto tempo.

eu venho dizer das dores

eu venho dizer das dores
dos buracos
da vida
deixados
abertos
no espaço
tempo
que não nos pertenceu.
das rupturas
e fragmentos
do corpo
e
da mente.

e venho dizer
de um
dentro e fora
não
condizentes.
das batalhas
travadas
que foram regadas
como
sementes.

mas venho dizer
de como
floresce
e cresce
e
sabiamente
sorri
com os dentes.

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